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José Carlos Vilar - Mestre Escultor 

curadoria de Agnaldo Farias

Só trabalho em ferro forjado que é quando se trabalha

ferro; então, corpo a corpo com ele,

domo-o, dobro-o, até o onde quero.

João Cabral de Melo Neto – O ferrageiro de Carmona

 

 

Finalmente São Paulo recebe uma exposição de José Carlos Vilar, mestre capixaba, artista cultuado por artistas, sobretudo os que

frequentaram suas aulas durante as décadas em que foi professor do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Com ele

tiveram aula de escultura e também aulas de responsabilidade e disciplina, pois, como explica Vilar, sem esses dois ingredientes na lida com

metais nada acontece. Trabalhar com o ferro significa aprender a escutá-lo, entender suas demandas, em alguma medida transformar-se

nele. Vilar define o corpo a corpo com o ferro não como ação violenta, mas como diálogo. “O caminho é o diálogo com o material. Na

juventude [recorda] queria fazer com o ferro o que quisesse. Aprendi depois o caminho do diálogo. Se você for com violência ele te

responde com violência. Aí você se corta”.

Há, nessa compreensão do problema, o alinhamento com uma rica tradição na cultura brasileira, que não se limita as artes visuais, de que

são exemplos a poesia de Cabral, a prosa de Graciliano, a música de Jobim. No âmbito do fazer escultórico há um arco que parte de Franz

Weissman, Amilcar de Castro, José Resende e desemboca em artistas como Artur Lescher. Com obras de presença forte, apuradas e

concisas, José Carlos Vilar junta-se aos adeptos da matéria densa e do ar. Em busca do despojamento, o artista aperfeiçoou a disciplina e a

determinação incutida desde a infância.

Para esta primeira individual do mestre trouxe-se uma pequena amostragem dos modos de se trabalhar o ferro, começando pela Aranha,

peça monumental realizada em vergalhões grossos. Com seus três tentáculos apoiados nas pontas dos pés pontiagudos, o cerne oco do

proto-inseto ágil, flexível, afunila-se pelos fios de suas patas filiformes. Observando-a, passando por debaixo dela, o visitante perceber sua

relação com Onda, a primeira da sala expositiva, também feita com vergalhões, puro ímpeto estancado em seu ápice. Apoiada no chão,

eleva-se levando consigo seu corpo e sua sombra, amalgama de grafismos embaralhado; desenho complexo que nos leva a pensar quais são

os limites dos corpos, até onde eles vão.

Há esculturas de mesa e de chão que fazem pensar em seres vegetais, bulbos já parcialmente rebentado de uma planta, uma semente

espinhenta, esporões sólidos, carapaça agigantada de um inseto. Há obras geométricas a sugerirem vizinhanças, como o volume baixo,

afunilado, agudo como foguete ou obelisco, outra aparentada com um bípede, pernas solidamente assentadas no chão. Outras,

aparentemente inventadas, porque não nos fazem pensar em nada, chamam ainda mais a atenção.

Há esculturas mais altas que progridem de volumes opacos, densos, à volumes ocos, leves como desenhos materializados, que se

desprenderam do papel para conquistar o espaço. Facear essas peças de escala tão próximas às dos nossos corpos, equivale a encarar

alguém, ou nós mesmos quando diante do espelho. Pode-se argumentar que não referem diretamente aos nossos corpos mas

indiretamente, isso porque têm a escala e a familiaridade de casas, portas, torres e totens, construções arquetípicas feitas para nós,

ergonomicamente concebidas e construídas. Ainda nessa família, há a casa espichada com telhado de duas águas, a escultura encostada na

parede com o feitio de um exoesqueleto a convidar nosso encaixe dentro dela, todas elas, com suas alturas, profundidades e frestas a pedir

que a espreitemos. Vamos até elas como se regressássemos.

Arranjada na sequência de Ondas, a escultura ondulante composta por quatro partes, da altura da nossa cintura, fazendo ondular nosso

olhar, pedindo para ser tocada, Batéias é uma instalação igualmente pautada na fragmentação: um conjunto de cones/batéias, cada uma

delas suspensa por um delicado cabo de aço, garantia de movimento contínuos e desencontrados a maneira de um móbile de Alexander

Calder. Batéias espalha-se em alturas diversas, variação amplificada pelo efeito da iluminação, provocando sombras elípticas. Se Ondas

rende tributo ao mar, Batéias homenageia um dos instrumentos fundamentais na mineração, aplicado no processo de revolvimento da terra

com o objetivo de extrair o que há de precioso e ocultado dentro dela.

Esse conjunto de obras surpreendem pela riqueza de formas e soluções, pela variedade de processos, pela demonstração cabal da

capacidade de Vilar em expandir o trabalho para frentes diversas, sua potência plástica. São, a um só tempo, obras e maquetes de obras

futuras, eventualmente imensas como as que o artista vem sendo convidado a realizar. Advertem para o fato de que o simples desenho de

uma escultura, um pequeno e embrionário esboço de uma ideia qualquer no papel, já vale como ideia incrustada no mundo, semente de

expansões inesperadas, como a semente de uma árvore abrigada na palma de uma mão fechada, convertida em árvore amanhã.

Agnaldo Farias

 

 

Período expositivo: 28 de fevereiro a 26 de junho de 2026

Galeria Herança Cultural

Rua do Curtume, 274  - Lapa de baixo

 


 
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